
Ciclo
O molar solitário de uma prostituta
que morrera no anonimato
tinha uma aplicação de ouro.
Os restantes, como por mudo acordo tácito,
tinham caído.
O funcionário da morgue arrancou-o,
pô-lo no prego e foi dançar.
É que, dizia ele,
só o que é terra à terra deve voltar.
Gottfried Benn (1912)
(tradução de João Barrento)
ONTEM COMECEI
A matar-te meu amor
Agora amo
O teu cadáver
Quando eu estiver morto
O meu pó gritará por ti
Heiner Müller
o pior cego
é o que não quer ouvir
de quatro, no chão
a outra face do homem
come direto do prato
as coisa são ...
começo, meio
... enfim
nunca cometo o mesmo erro
repito uma duas três
quantas vezes for
até provar para ele
que o erro
sou eu
quando vestida,
te encontro nua
na sombra amarrada ao meu corpo
a ilusão
tanto conforta quanto inquieta
respira-se o fio de ar
que por entre moléculas se contamina,
mas é oxigênio, para onde for,
que mata e vicia
Minha poesia é um pé no que se conforma
Minha poesia é um pé que não se conforma
Minha poesia é um pé no conformismo
Minha poesia é um pé no que se forma
Minha poesia é um pé que deforma
Minha poesia é um pé no intelectualismo
Minha poesia é um pé dando rasteira na estupidez
Minha poesia é um pé no alívio que a poesia dá
Minha poesia é um pé nos ouvidos surdos
Minha poesia é um pé no estômago do pop
Minha poesia é um pé pop que ouve jazz, erudito e rock
Minha poesia é um pé que dança valsa
Minha poesia é um pé não sabe dançar valsa
Minha poesia é um pé que não reconhece a minha bronquite
Minha poesia é um pé que caminha sozinho
Minha poesia é um pé que caminha acompanhando o outro pé
Minha poesia é um pé pisa na bosta dos cachorros e homens pelas ruas
Minha poesia é um pé que se limpa nos capachos das certezas covardes
Minha poesia é um pé subindo as escadas que descem
Minha poesia é um pé na negação que afirma
Minha poesia é um pé na afirmação que nega
Minha poesia é um pé na nega maluca das histórias
Minha poesia é um pé na ilusão do mundo
Minha poesia é um pé na crença do caos
Minha poesia é um pé na bunda do perfeccionismo
Minha poesia é um pé no interruptor da casa do horror
Minha poesia é um pé no beija-flor que não me deixa dormir
Minha poesia é um pé tropeçando nos crânios da trilha
Minha poesia é um pé gargalhando da topada
Minha poesia é um pé no espelho do egocentrismo
Minha poesia é um pé segurando a porta pros vendedores
Minha poesia é um pé na porta
Minha poesia é um pé no sofrimento
Minha poesia é um pé no gesso da história
Minha poesia é um pé esmagado as convicções
Minha poesia é um pé que trilha convicções
Minha poesia é um pé na orelha da violência
Minha poesia é um pé no intestino dos que não batalham
Minha poesia é um pé na rua da feliz melancolia
Minha poesia é um pé que acena adeus para as instituições
Minha poesia é um pé que se espalda na chuva
Minha poesia é um pé que não acredita na frieira
Minha poesia é um pé que não acredita na inocência
Minha poesia é um pé que não acredita no pré-estabelecido
Minha poesia é um pé que não acredita em estruturas além do homem
Minha poesia é um pé que não acredita em sociedades superiores
Minha poesia é um pé que não acredita em nada que se possa acreditar
Minha poesia é um pé que não acredita no verbo acreditar e sua negação
Minha poesia é um pé Minha poesia é um pé
Minha poesia é um pé ... no saco
(Um diálogo com o Umbigo de Behr?)
"Meu maior sonho
é ser um pesadelo"
Nicolas Behr
"Meu pior pesadelo
é ser um sonho"
Marcelo Nietzsche
O livro Cadernos do Beco pode ser encontrado na livraria Folha Seca.
Rua do Ouvidor 37, Centro, Rio de Janeiro, RJ.
a distância do soco
na medida da palavra
é a visão
de quem não vê além
PARALELOS
parelelas são nossas vidas
se encontram no infinito
...eu, duvido
Tiça Matta
VARIAÇÕES EM NIETZSCHE
"Quanto mais alto voamos
menores ficamos
para quem não sabe voar"
"Lá no alto a águia espreita
o rato lá em baixo observa
uma formiga a voar no céu"


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BRASIL, Sudeste, RIO DE JANEIRO, Homem, de 36 a 45 anos, Bengali; Bangla, Tibetan, Livros, Gastronomia